Retratações e Plágio: Um problema na academia

Publicado originalmente em: http://wcrodrigues.ebras.bio.br/opinions.asp

Lembro, que ainda na minha graduação (1994-1999) a qualidade de uma publicação era o que mais importava. Lembro-me de ler artigos que eram oriundos do texto original de dissertação, com adaptações às normas das revistas, como por exemplo, a dissertação de Racca Filho (1992), intitulada “Contribuição ao estudo dos gêneros Lasiodera Gray, 1832 e Philyra Laporte, 1836 (Coleoptera, Cleridae)” e seu artigo “Contribuição ao estudo de Lasiodera Gray e Philyra Laporte, gen. rev. (Coleoptera, Cleridae)” (Racca Filho & Peracchi, 1996).

Obviamente o parágrafo acima nos remete a pergunta. O que isso tem haver como plágio e retratação? Bom, seguirei esta vertente, para defender minha opinião quanto aos casos de plágio e retratação ocorridos desde a década de 1990, não que antes disso os casos de plágio não ocorressem, sim ocorriam, mas ou era difíceis de detectar ou ocorriam em menor número em comparação a década de 2010 em diante.

Contextualização

Em seu texto Spinak (2014) discute e contrapõe ideias de artigos publicados em diversos periódicos e em sua opinião “o erro está em copiar a seção “métodos” sem dar a devida atribuição que corresponde à fonte original. Finalmente, sempre é melhor fornecer muitas referências que poucas”. Concordo com o autor, mas vou um pouco mais afundo, pois copiar ideias de outrem sem dar os devidos direitos autorias, que aqui no Brasil são regulamentados pela lei 9610/1998. Assim copiar e usar um texto de outros, mesmo que seja na introdução de um artigo ou dissertação ou tese ou mesmo em trabalho de conclusão de curso, é apropriação indevida de uma ideia, pois a partir do momento que a fonte original (referência) é suprimida pressupõe que o autor daquele parágrafo ou parte do texto pertence a quem redigi.

Em um dos artigos apresentados por Spinak (2014) de autoria de Chaddah (2014), este último apresenta três tipos de possibilidades de plágios. Abaixo apresento a ideias do autor, baseando-se no artigo original:

  1. Texto copiado na introdução ou conclusão pode acontecer simplesmente devido a falta de domínio sobre o idioma (em geral o inglês), para expressar o conceito as ideias de maneira diferente do original. Ainda pode acontecer ainda, que o autor tinha lido trabalhos anteriores, que deixaram uma marca indelével em seu subconsciente. Nesse caso Chaddah (2014), afirma que um dos dois exemplos é o suficiente para retratação.
  2. Se os experimentos são realizados como descrito e o devido crédito é dado, em seguida, os resultados no artigo errante são robustos e beneficiam a áreas relevantes.
  3. Texto em “segunda-mão” nas seções métodos e resultados poderia indicar um caso mais grave de plágio – de ideias e dados. Os softwares de computador não podem determinar se este for o caso; que exige mais atenção de especialistas independentes.

Softwares e Meios de Avaliação

Para Bailey (2014), o plágio é também um sinal de alerta. Embora a escrita desleixada não significa um pesquisa desleixada, muitas vezes é uma indicação de um problema maior (tradução livre). Artigos com questões éticas muitas vezes têm vários problemas e plágio de texto, atualmente, é um dos mais fáceis de detectar. Concordo com a opinião do autor uma vez que O Ithenticate, o Grammarly e outros softwares de detecção de plágios como o CopySpider (Gratuito), permitem varrer os artigo/texto e comparar como os textos disponíveis na rede mundial de computadores, mas ainda há grande desafios para estes softwares uma vez que o plágio pode ser apenas a tradução de um artigo, e quem o plagiou assume a autoria. Assim os softwares atualmente não usam o sistema de tradução para comparação entre os diversos idiomas científicos utilizados na escrita de textos acadêmicos.

E não são apenas estes os softwares. Existem diversos gratuitos ou não e que auxiliam os editores e mesmos comitês a detectar plágio e determinar a retratação ou não dos artigos, baseando-se nas políticas de retratação do periódico, que devem ser bem definidas e estarem em constante atualização, uma vez que o dinamismo dos problemas oriundos da falta de ética de pesquisadores sejam eles novatos ou sêniores.

Recomendo sempre o uso dessas ferramentas, mas o amplo conhecimento dos artigos publicados na área é de fundamental importância para a aplicação mais correta da avaliação das similaridades ou plágios em artigos científicos. Acredito que cada instituição deveria possuir um comitê científico focado na detecção de plágios. Não para perseguir, mas para permitir minimizar problemas aos periódicos, que pode cair em descrédito à medida que artigos vão sendo retratados, seja por plágio ou fraude. Este comitê deve ser o responsável pela elaboração das políticas que irão nortear e tratar de casos suspeitos de plágio e indicar a retratação ou não. O comitê deve ser regido pelos princípios éticos e da imparcialidade e deve seguir uma rígida política de conflito de interesses nos casos avaliados.

Por que Tantos Plágios Ocorrem Atualmente?

O Site The Retraction Watch (http://retractionwatch.com) lista os artigos retratados e as causas. O caso talvez mais conhecido no Brasil foi o “Brazilian forensic entomologist faces at least three retractions for plagiarism”(Oransky 2011), onde verifica-se que a partir de um caso de retratação, outros casos possíveis surgiram envolvendo os mesmos autores o que gerou na época grandes discussões na rede mundial de computadores. Entretanto há outros casos para o Brasil.

Obviamente não é o único caso, pois desde o advento das submissões online e a criação de revistas por Publishers predatórios, que aceitam qualquer artigo e publicam mediante pagamento de taxas altíssimas e em dólares, alguns artigos podem chegar a US$ 2,500.00 a publicação, sem a necessidade da passar por um comitê ou por pelos menos dois avaliadores anônimos ou não, o número de artigos aumentaram numa progressão geométrica, a partir da década 2000, onde a rede mundial de computadores tornou-se o maior meio de comunicação. Com isso a facilidade de submeter artigos ficou cada vez maior, mas ai vem também os perigos desta desenfreada busca do maior número de artigos e com isso vêm os problemas.

Inicialmente temos as cobranças das agências financiadoras ou órgãos de fomentos, que exigiam cada vez mais artigos com índice de impacto cada vez maior, a própria CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) tem sua parcela de culpa quando avaliou mal e muito mal as revistas oriundas de Publishers predatórios, o que deixou em parte as revistas menores e médias aqui no Brasil a “ver navios”. Outro aspecto é o baixo incentivo aos Publishers nacionais, que vem ao longo dos anos tentando se tornar competitivos e alguns deles associados à ABEC Brasil, como é o caso da Zeppelini Publisher.

O sistema QUALIS da CAPES, tem seus pontos falhos, mas tem seus pontos fortes, como avaliar os programas de pós-graduação como base nas revistas, mas a avaliação das revistas sob meu ponto de vista é falho, uma vez que algumas áreas exigem de periódicos indexações e um índice de impacto, que apenas alguns nacionais conseguem. Alcançar o tão sonhado A1 é para alguns periódicos, algo surreal, sem uma política nacional para o fortalecimento das revistas (periódicos) nacionais, pois o que temos atualmente é uma política onde há muito enfoque nos que se publica lá fora, e mesmo o que se publica nacionalmente em inglês, há certo preconceito pela academia.

Em um texto publicado após o texto de Spinak (2014), o SciELO em Perspectiva (2014) explicita que o número de retratações pela Nature ocorre a uma taxa de uma a duas por ano, principalmente devido a erros honestos, o que exclui as fraudes, seja por manipulação dos dados ou mesmo plágios. Apontando assim para o maior índice de retratação para os artigos publicados entre 1994 e 2014, ou seja, algo recente indicada pelo intensivo uso de ferramentas antiplágio (veja Softwares e Meios de Avaliação), mas aponta ainda “que os erros derivem da falta de reprodutibilidade em laboratórios submetidos à alta pressão por gerar resultados e publicações”.

O texto do Blog o SciELO em Perspectiva (2014), conclui ainda que: “Um aspecto a ser considerado, é, sem dúvida, o desperdiço de recursos em pesquisa que acabam produzindo resultados falsos, quer intencionalmente ou não. Entretanto, os recursos envolvidos nas disputas judiciais pelas partes interessadas em zelar por suas reputações – instituições, autores e periódicos – também não são desprezíveis”. Conclui ainda que “de qualquer forma, considerando todas as variáveis, é de suma importância retratar as publicações falsas”.

Uma matéria publicada por Pereira (2014) na Gazeta do Povo indica que retratação de fraudes científicas aumentou 10 vezes em 40 anos (título da matéria) e aponta os casos devido a pressões para publicação mais rápida, além do famigerado Fator de Impacto, que gerou em 2013 o caso de quatro revistas que foram acusadas de citação cruzada, mas vem um questionamento, se a referência cruzada é antiético como podemos encarar o índice de povoamento que alguns comitês da CAPES tem sugeridos aos programas de Pós-Graduação? Deixarei a pergunta no ar.

Ainda sobre o caso das referências cruzadas, segundo Pereira (2014) um dos editores em entrevista a Nature alegou “que o esquema derivou da frustração com os critérios da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, cujas políticas de ranqueamento baseadas no F.I. dificultariam o crescimento de revistas pequenas ou recém-lançadas, sempre preteridas pelos pesquisadores”.

Considerações Finais

Com os aspectos explorados volto ao primeiro parágrafo do texto e ainda tenho a convicção que a desenfreada cobrança das agências e os ranqueamentos, que a cada dia tornam ainda mais difícil a publicação, levam a alguns despreparados e pesquisadores cuja a ética possui desvio, a publicarem fraudes ou simplesmente se apoderarem indevidamente de métodos inéditos e resultados de outrem. Obviamente o caráter ilibado de um pesquisador não sofrerá ou cederá a pressão das agências, a não ser que exista uma ruptura nos seus princípios ou a tendências a ser volátil seja de sua índole. Entretanto vejo muitos colegas pesquisadores, principalmente os mais antigos, desanimados devidos as grandes pressões por números e não por qualidade dos papers produzidos.

Outro aspecto que chama atenção é que a internacionalização tem causado a muitos pesquisadores uma pressão muito maior, que anos atrás, o que pode estar levando a muito abandonarem a pesquisa e mesmo a docência. Não que isso deveria ser um motivo, mas mais um que contribui para o afastamento de profissionais. Estes preferem sair de cena a cederem a tentação de fraudar ou mesmo “copicolar” dados alheios sem a devida citação.

Aos Jovens pesquisadores e principalmente àqueles que ainda buscam um lugar ao sol, tenho muito cuidado com as questões éticas, pois a cada dia temos, nos editores de periódicos, mais ferramentas e adesão em massa a criação de uma política de retratação, por fraude ou plágio. Os comitês têm sido instituídos e as demandas por similaridades, fraudes e plágios têm crescido, sem contar com o intenso uso de ferramentas antiplágio, que a cada dia têm sido aperfeiçoadas pelos seus desenvolvedores.

Portanto, mantenha-se reto desde o início de sua carreira científica, isso ainda no programa de iniciação científica. Aos que já militam na pesquisa, apenas recomendo cautela e muita vigília, principalmente de seus pupilos e de si mesmo. Devemos pensar em qualidade e retorno a sociedade e não somente alcançar os tão utópicos índices, como fatores de impacto, qualificação da CAPES e demais métricas que tem nos pressionado a todos o momento.

Referências

Bailey, J. 2014. Should Research Plagiarism Cause an Automatic Retraction. Ithenticate. Disponível em: <http://www.ithenticate.com/plagiarism-detection-blog/should-research-plagiarism-cause-an-automatic-retraction#.VoPxGFmHSOt>. Publicado em: 24 julho 2014, Acessado em: 30 dezembro 2015.

Chaddah, P. 2014. Not all plagiarism requires a retraction. Nature, 511: 127. Disponível em: <http://www.nature.com/news/not-all-plagiarism-requires-a-retraction-1.15517>, Publicado em: 07 July 2014. Acessado em: 30 dezembro 2015. doi:10.1038/511127a.

Pereira, D.R., 2014. Retratação de fraudes científicas aumentou 10 vezes em 40 anos. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/educacao/vida-na-universidade/retratacao-de-fraudes-cientificas-aumentou-10-vezes-em-40-anos-ebvmxodcsmtetgdzwc8y9cnke>. Publicado em: 10 agosto 2014. Acessado em: 02 de janeiro 2016.

Racca Filho, F. & A.L. Peracchi, 1996. Contribuição ao estudo de Lasiodera Gray e Philyra Laporte, gen. rev. (Coleoptera, Cleridae). Revista Brasileira de Zoologia, 13(2): 357-397.

Racca Filho, F. 1992. Contribuição ao estudo dos gêneros Lasiodera Gray, 1832 e Philyra Laporte, 1836 (Coleoptera, Cleridae). Mestrado em Ciências Biológicas (Mestrado em Biologia Animal) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. ??f.

SciELO em Perspectiva, 2014. Os desafios da retratação: passar a literatura a limpo pode ser difícil. Disponível em: < http://blog.scielo.org/blog/2014/10/10/os-desafios-da-retratacao-passar-a-literatura-a-limpo-pode-ser-dificil>. Publicado em 10 outubro 2014, Acessado em: 30 dezembro 2015.

Spinak, E., 2014. Ética editorial – os plágios devem ser retratados? – não todos. Acessível em: <http://blog.scielo.org/blog/2014/08/13/etica-editorial-os-plagios-devem-ser-retratados-nao-todos>. Publicado em: 13 agosto 2014. Acesso em: 30 dezembro 2015.

Oransky, I., 2011. Brazilian forensic entomologist faces at least three retractions for plagiarism. Retraction Watch. Acessível em: <http://retractionwatch.com/2011/08/22/brazilian-forensic-entomologist-faces-at-least-three-retractions-for-plagiarism/#more-4112> Publicado em: 22 agosto 2011. Acesso em: 30 dezembro 2015.

 

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